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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Xerém – Um olhar entre muitas visões



O que era um rua com casas, tornou-se rio!
No segundo dia do ano de 2013 fui dormir por volta dás 01h da madrugada era, portanto, o dia 03 de janeiro. Falava naquele momento com uma pessoa que é moradora de Xerém. A mesma me dizia antes de dormir: “nossa tá chovendo muito aqui, muito mesmo! Estou assustada com o barulho dos trovões, pois nunca vi uma chuva tão forte!”. Olhando para o céu da minha casa, 20km distante da dela, disse-lhe: “aqui o tempo está fechando também”. Naquele momento coube até uma brincadeira, ainda não sabíamos à gravidade da coisa e disse-me: “então só vai chegar uma garoa aí, pois já choveu tudo aqui!”. E assim nos despedimos e fomos dormir cada um sob o seu céu. Porém, para a minha surpresa, mal dormira já acordara com uma ligação. Ninguém liga para você às 04h32 se não for trote ou um grave problema. Era a mesma pessoa que acabara de me despedir dizendo que Xerém estava mergulhada, literalmente, no caos. Confesso que num primeiro momento relutei em acreditar. Não era possível que isso acontecesse mais uma vez, sexto ano consecutivo, e agora na minha cidade e num lugar onde moram diversas pessoas que amo. Mas era verdade!
Minha primeira atitude foi entrar na internet para saber o que tinha acontecido ou buscar algo. Como não sabíamos o que era suspeitávamos que fosse a represa do Xerém que tinha se rompido. E para minha surpresa vi a Sra. Tatyane Lima, primeira dama, on line numa rede social. Depois de pensar que aquilo era algo estranho enviei-lhe uma mensagem sobre o que as pessoas falavam que estava acontecendo em Xerém e a mesma me respondeu dizendo que a Defesa Civil e o prefeito já estavam no local. Pronto! A coisa era muito grave!
Depois disso, e diante da minha impotência, tentei localizar aqueles que conhecia e que moravam perto do local do desastre. Consegui localizar todos. A noite virou dia, as noticias aumentavam e a angustia crescia. Não dava para ficar parado em casa enquanto aqueles que amava estavam sofrendo. Após localizar a última pessoa que faltava, arrumei minha mala e parti para Xerém.
Cheguei lá poucas horas depois do desastre e o que vi foi pura destruição. Incerteza, incredulidade. E tantos outros sentimentos. Ninguém entendia o que estava acontecendo. Muita gente já estava por lá. O poder público já estava lá trabalhando. Havia luzes em meio às trevas. Muita gente querendo ajudar e não sabíamos o que dizer. Não sabíamos de nada! Na verdade não estávamos entendendo nada como disse acima. Encontrei na sala da casa paroquial meu amigo Alex e sua família, que se encontravam naquele momento desalojados. A parte debaixo da sua casa, onde mora o pai, fora tomada pelo rio e a de cima estava sob o risco de ser engolida por um morro que cedia. Quero me deter um aqui, pois creio que essa casa sintetiza o que houve em Xerém. Desastres naturais podem até ser normais, mas tem muita coisa errada! Não me adentro no dado histórico, deixo para quem é especialista na área. Mas o rio invadiu porque foi açoriado e as suas margens desmatadas; o morro cedeu porque desmataram e para a construção de uma rodoviária inútil explodiram uma rocha! Eu te pergunto companheiro: foi o pobre que fez isso? Não, não foi! E agora o sujeito quer posar de bom moço, o sujeito não, os sujeitos! Operando máquina... sujando a própria roupa de lama... enfim... Mas uma vez digo, não posso falar sobre o dado histórico, por que o pobre foi morar na beira do rio. Creio que foi porque fora expulso do grande centro para instalação da burguesia e cada vez mais expulso para as regiões periféricas não tinha onde morar.
 O que sobrou de uma casa e de uma família
O cenário era terrível! O nível da água chegou a ultrapassar o teto de muitas casas e se pensando que estas estavam a 10, 15 metros da margens e que a altura do rio para a superfície era de 3, 4 metros... o volume de água foi imenso. Na parte baixa do Café Torrado ruas deixaram de ser ruas, casas sumiram. A cena que mais me marcou foi ao visitar o amigo Henrique, que teve sua casa tomada, encontrei o que era uma casa, na verdade não tinha nada. E somente três cruzes fincadas na terra.
Tenho muita coisa para dizer, mas penso, o que vale dizer? Ainda assim quero destacar, mesmo sem nada valer. Leia quem quiser. Desculpem-me o azedume da escrita. Estou assim por que vi que quem muito fala, pouco faz! É isso mesmo! Vi muita gente colocando em suas redes sociais #SOSXerém #SalveXerém #ForçaXerém, gente emitindo cartas, pedindo coisas. E não fazendo nada! Gente que muito fala e não faz nada! Grandes ideólogos que os chamo de verborratas! Despejam teorias, despejam utopias que não servem de nada! Na verdade divagam sobre tudo e todos! Sepulcros caiados! E por terem status ou poder de liderança acabam arrebanhando pessoas em suas psicopatias.
Não é preciso ser GRANDE para ser voluntário!
Mas vi muitos jovens e crianças, que não estão na estrutura. Estrutura para mim que é muito mais engessada do que orgânica. Pois se a estrutura te impede de agir irmão... Saia dela! E que foram lá ajudar sem pretensão alguma. Jovens de outras dioceses que estiveram lá e contribuíram muito mais do que muitos grupos da minha. Eu mesmo pouco fiz! Mas aprendi que doar é como aquela mulher, que tendo pouco, deu tudo! Sabe o que foi engraçado? Vi muitos jovens que os pais têm muita grana. Doando suas vidas lá. Comendo a mesma comida que todo mundo. Suando e se sujando como todos. E sem pensar na recompensa. Faziam porque sabiam que eles muito tem e as pessoas que sofrem tinham ou tem o nada.
Aprendi nesses dias que solidariedade não tem tamanho, idade, cor ou classe social. Mas sim habita num coração inquieto que deseja ver o bem do outro. E não apenas num arrobo de altruísmo vai lá doar uma roupa usada, suja e rasgada. E até mesmo alimentos vencidos!
Agora é hora de calcular as perdas... casas, bens e VIDAS. Sabemos que muitos se foram, embora a mídia não divulgue, pois, diferente deles nós os conhecemos. Eles não voltaram para as suas casas. Serão indigentes sepultados sob o solo do Xerém. Temos que ajudar ao povo de lá a se organizar, até por que já se organizam, a formar uma comissão para garantir a dignidade daquela gente na reconstrução do bairro. Para que eles, assim como o nome do local, não sejam os descartados. Os milhos quebrados que não passam na peneira!


por Adielson Agrelos

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